Em 14 de agosto de 1930, segundo o diário da construtora, 3.439 homens trabalhavam no mesmo quarteirão de Manhattan, em Nova York, Estados Unidos. A obra do Empire State Building é uma das mais bem documentadas do século 20: toneladas de aço por semana, datas de cada coluna, fotografias numeradas.
E, mesmo assim, ninguém compilou a lista dos homens que a levantaram. Esta página reconstrói a obra pelo que as fontes registraram, mostra onde elas discordam, e diz com todas as letras o que ninguém anotou.
FICHAFicha da obra
| Quem quis | Al Smith, ex-governador de Nova York, anunciou o prédio no fim de agosto de 1929; John J. Raskob e Pierre S. du Pont puseram o capital. Em 13/12/1929 a Metropolitan Life aprovou empréstimo de US$ 27.500.000. | 2+ fontes |
|---|---|---|
| Terreno | O do hotel Waldorf-Astoria. Demolição iniciada em 1/10/1929 (New York Times da época) × "1930" (laudo de tombamento de 1981). | diverge |
| Arquiteto | William F. Lamb, do escritório Shreve, Lamb & Harmon | 2+ fontes |
| Tempo de desenho | "Duas semanas" (Smithsonian) × quatro semanas de estudo e o partido traçado em cerca de duas horas, numa noite (o próprio Lamb, Architectural Forum, jan/1931) | diverge |
| Construtora | Starrett Brothers & Eken; montagem do aço pela Post & McCordPost & McCord: Architectural Forum, ago/1930 | 2+ fontes |
| Operários no pico | 3.439 num só dia, 14/8/1930 (diário da Starrett) × cerca de 3.400 (ASCE) × 3.500 (Skyscraper Museum) × 5.000 "no pico" (Popular Mechanics, dez/1930) × cerca de 3.000 (editora do livro de Glenn Kurtz)Kurtz fala em cerca de 10.000 ao longo de toda a obra | diverge |
| Quem eram e quanto ganhavam | Imigrantes irlandeses e italianos, e montadores mohawk de Kahnawake, Quebec, Canadá. Escala sindical de Nova York em 15/5/1930 para montador de aço: 192,5 centavos por hora, US$ 77 por semana de 40 horas, sábado livre, hora extra em dobro.salário: Bureau of Labor Statistics, boletim 540; é a escala do sindicato, não a folha da obra | 1 fonte |
| Nomes dos operários | Ninguém compilou a lista. Sobraram 32 nomes de artesãos premiados numa placa de bronze no saguão; o livro de Glenn Kurtz (nov/2025) foi o primeiro a reconstruir quem eram. | sem registro |
| Prazo | Obra iniciada em 17/3/1930; primeiras colunas de aço em 7/4/1930; aço no topo em 19/9/1930; inauguração em 1/5/1931, com Herbert Hoover acendendo as luzes por um botão em Washingtonaço no topo: uma fonte (Willis & Friedman, 1998) | 2+ fontes |
| Ritmo | 4,5 andares por semana, contra 3,5 do recorde anterior para prédio dessa alturao trecho mais rápido diverge: 14 ou 14 e meio andares em 10 dias úteis | 2+ fontes |
| Custo | US$ 40.948.900, com a demolição do Waldorf. Orçamento: US$ 50 milhões × US$ 60 milhões. Em dinheiro de hoje: cerca de US$ 867 milhões de 2025 pelo índice de preços ao consumidor dos EUA (média de 1931 a média de 2025), ou US$ 678 milhões de 2024 pelo deflator do PIB.o orçamento diverge entre as fontes | 2+ fontes |
| Mortes | 5 registradas pela construtora em 22/10/1930 (1 na demolição, 1 na escavação, 3 na torre) × 14 (New York Daily News) × "até 42" (revista New Masses, tratado pelos historiadores como boato). Nenhum nome foi publicado nas fontes disponíveis. | diverge |
| Altura e andares | 381 m até o 102º andar; 443 m até a ponta da antena. Os 102 andares são 86 andares, mais o mastro contado como 14, mais 2 subsolos.a conta dos 102: laudo de tombamento de 1981 | 2+ fontes |
| Material | Aço: 57.480 t curtas × 57.000 t × 60.000 t. Tijolos: 10 milhões.tijolos: duas ou mais fontes | diverge |
| Elevadores e escada | 73 elevadores hoje (os originais: 64 × 66); 1.576 degraus até o 86º andar, 1.860 até o 102ºo número original de elevadores diverge | 2+ fontes |
| Depois | 23% alugado no primeiro ano; o observatório ajudou a evitar a falência. Primeiro lucro: anos 1940 × início dos anos 1950. Em 28/7/1945, um B-25 bateu entre o 79º e o 80º andar: 14 mortos.o ano do primeiro lucro diverge | 2+ fontes |
01Um anúncio, e dois meses depois a quebra
No fim de agosto de 1929, Al Smith, ex-governador de Nova York, anunciou o novo prédio. O dinheiro vinha de John J. Raskob e de Pierre S. du Pont. O terreno era o do hotel Waldorf-Astoria, em Manhattan, e a demolição começou, segundo o New York Times da época, em 1º de outubro de 1929. O laudo de tombamento de 1981 data a demolição de 1930.
Em 24 de outubro de 1929, cerca de dois meses depois do anúncio, a Bolsa de Nova York quebrou.
O projeto não parou. Em 13 de dezembro de 1929, a diretoria da Metropolitan Life aprovou um empréstimo de US$ 27.500.000 à Empire State, Inc. Um mês antes, Al Smith tinha deixado a diretoria da seguradora justamente porque a empresa que ele presidia negociava esse empréstimo. A nota do jornal ainda chamava o prédio de "85 andares": o mastro do topo ainda não estava no desenho.
02Um projeto que corria junto com a obra
O arquiteto foi William F. Lamb, do escritório Shreve, Lamb & Harmon. Quanto tempo ele levou para desenhar o prédio depende de quem conta. O Smithsonian fala em duas semanas. O próprio Lamb, na revista Architectural Forum de janeiro de 1931, contou quatro semanas de estudo com a equipe e o partido do prédio traçado numa única noite, em cerca de duas horas.
O que os documentos de 1930 mostram é um desenho que andava poucas semanas à frente do aço. As primeiras plantas da estrutura foram entregues em meados de janeiro de 1930. O projeto estrutural só ficou concluído até a laje sobre o 85º andar em meados de junho, quando as colunas já subiam havia dois meses.
A obra começou oficialmente em 17 de março de 1930, data gravada num medalhão do saguão. A montagem do aço estava programada para 1º de abril; a fotografia nº 133, publicada pelo engenheiro da estrutura, mostra as primeiras colunas sendo assentadas no subsolo em 7 de abril.
03Trinta mil toneladas em nove semanas
O aço vinha da Carnegie Steel, em Homestead, perto de Pittsburgh. A fabricação foi dividida entre duas empresas, a American Bridge, em Ambridge, e a McClintic-Marshall, em Rankin, que se revezavam em grupos de seis a oito andares. A montagem era da Post & McCord. Em cada um dos dois primeiros meses, foram fabricadas 15.000 t.
No alto, nove guindastes giravam no começo: cinco de 30 t e quatro de 20 t. Entre 7 de abril e 9 de junho de 1930, foram montadas quase 30.000 t de aço. O engenheiro da estrutura, J. L. Edwards, escreveu em agosto daquele ano que isso era cerca de 50% a mais do que todo o aço do 40 Wall Street ou do Chrysler Building, e chamou o ritmo de recorde de velocidade por tonelada.
Não havia pátio: o canteiro era o próprio prédio. Mais de 200 caminhões chegavam por dia. Em cada andar, vagonetes sobre trilhos distribuíam o material até onde ele seria usado, e havia lanchonetes em cinco andares, para que ninguém perdesse tempo descendo.
O ritmo virou recorde. O historiador John Tauranac registra o 26º andar em 20 de junho e metade da estrutura em 27 de julho. A revista ENR fala em 22 andares em 22 dias úteis em julho, em horário normal. Na média, foram 4,5 andares por semana, quando o recorde anterior para um prédio dessa altura era de 3,5. Uma frase em primeira pessoa, reproduzida em livros sem autor confirmado, diz que "uma vez erguemos 14 andares e meio em 10 dias úteis", e lista aço, concreto e pedra; outros historiadores falam em 14 andares no mesmo prazo. O aço chegou ao topo em 19 de setembro de 1930, segundo o diário da construtora publicado por Willis e Friedman. O programa divulgado em 1930 previa a estrutura do telhado para 1º de setembro.
04Os homens do aço
Quem estava lá em cima eram, em boa parte, imigrantes irlandeses e italianos, e uma minoria de montadores mohawk de Kahnawake, Quebec, Canadá. O fotógrafo Lewis Hine acompanhou a obra, e algumas de suas fotos saíram em revistas ainda em 1930.
Quantos eram depende da conta. O diário da construtora registrou 3.439 homens num único dia, 14 de agosto de 1930. A Popular Mechanics de dezembro de 1930 fala em 5.000 "no pico da construção"; o Skyscraper Museum, em 3.500; a editora do livro de Glenn Kurtz, em cerca de 3.000; e o próprio Kurtz, em cerca de 10.000 ao longo de toda a obra. É provável que sejam contas diferentes — o dia mais cheio e o total de homens que passou pela obra —, mas as fontes não as reconciliam.
Quanto ganhavam também tem fonte oficial. O boletim 540 do Bureau of Labor Statistics registra a escala sindical de Nova York em 15 de maio de 1930: o montador de estrutura de aço recebia 192,5 centavos por hora, US$ 77 por semana cheia, em 8 horas por dia, 40 por semana, com sábado livre e hora extra paga em dobro. O pedreiro tinha a mesma escala; o servente de pedreiro, 112,5 centavos por hora. É a tabela do sindicato, não a folha de pagamento da obra.
Turnos de 12 horas existiram, mas na escavação: de janeiro a março de 1930, dois turnos de 300 homens cada, segundo o historiador Langmead (2009). Na demolição do hotel trabalhavam, em média, 600 homens.
05Cinco mortes, e quem fez a conta
O número oficial é cinco, e ele tem data e autor. Em 22 de outubro de 1930, a Starrett Brothers & Eken, negando boatos de mortes demais na obra, anunciou ao New York Times que cinco mortes tinham sido registradas: uma na demolição do Waldorf-Astoria, uma na escavação e três na construção do prédio novo. A conta é da construtora, sete meses antes da inauguração.
Tauranac descreve as circunstâncias: um operário foi atingido por um caminhão enquanto serrava uma tábua; outro entrou numa área de detonação; outro pisou fora de um andaime; outro caiu no poço do elevador; o último foi atingido por um guincho. Nenhum deles caiu da estrutura de aço.
Outros números circularam. O New York Daily News falou em 14 mortos. A revista New Masses chegou a "até 42", número que os historiadores tratam como boato. E o nome de nenhum dos cinco aparece nas fontes disponíveis.
06O mastro, as luzes e o prédio vazio
Em 1º de maio de 1931, em Washington, o presidente Herbert Hoover apertou um botão, e as luzes do Empire State se acenderam em Nova York. Foram 410 dias desde 17 de março de 1930. Contando dos contratos dos arquitetos, em setembro de 1929, foram cerca de 20 meses. O custo final ficou em US$ 40.948.900, com a demolição incluída — abaixo de um orçamento que as fontes dão como US$ 50 ou US$ 60 milhões.
O mastro do topo foi calculado para a força do vento somada ao puxão de um dirigível atracado: 318.000 libras, pouco mais de 7% dos 4.340.000 libras de carga de vento sobre a fachada, segundo a Architectural Forum de agosto de 1930. Na prática, quase não serviu. Em 15 de setembro de 1931, um pequeno dirigível da Marinha dos EUA deu 25 voltas em ventos de 45 milhas por hora, derramou lastro e foi sacudido pela turbulência; o historiador naval Norman Polmar o identifica como o J-4 e fala num contato de 3 minutos. Uma foto do New York World-Telegram datada de 30/9/1931 registra o Goodyear-Zeppelin Columbia tentando levar sacos de correio do mastro: a corda chegou uma vez às mãos de Andrew Kelly, e escapou. Um cinejornal da Universal de 1º/10/1931 mostra, ao contrário, uma encomenda entregue nos braços de um funcionário da torre. Podem ser dois voos diferentes.
No primeiro ano, só 23% do prédio estava alugado, e Nova York passou a chamá-lo de Empty State Building. Em 1936, não havia elevador acima do 45º andar. Quem segurava as contas era o observatório: cerca de 1 milhão de visitantes por ano, a US$ 1 cada, o que, segundo o laudo de tombamento, salvou o prédio da falência, em parte. Quando veio o primeiro lucro, as fontes não concordam: anos 1940 ou início dos anos 1950. Em 1951, o prédio foi vendido por US$ 51 milhões.
Em 28 de julho de 1945, às 9h40, com neblina, um bombardeiro B-25 bateu entre o 79º e o 80º andar. Morreram 14 pessoas: os 3 tripulantes e 11 pessoas no prédio. A ascensorista Betty Lou Oliver caiu 75 andares dentro de um elevador e sobreviveu, recorde registrado pelo Guinness.
07Noventa e quatro anos depois, os nomes
Por quase um século, os homens das fotos de Hine ficaram sem nome. O Skyscraper Museum resume: nenhuma lista de operários dessa obra foi compilada. Os únicos nomes que sobraram no prédio estão numa placa de bronze no saguão, com 32 artesãos premiados pelo New York Building Congress — entre eles Michael Tierney, perfurador de rocha, e Vladimir Kozloff, demolidor.
Em novembro de 2025, o escritor Glenn Kurtz publicou Men at Work: The Empire State Building and the Untold Story of the Craftsmen Who Built It. Cruzando censo, registros de imigração e de sindicato, jornais da época e entrevistas com descendentes, o livro deu nome aos homens que levantaram o prédio. Em 1º de maio de 2026, o Empire State completou 95 anos.
MITOSO que circula e o que o registro diz
- O que circula
A foto dos onze operários almoçando sentados numa viga foi tirada no Empire State.
O que o registro dizNão foi. A foto é do RCA Building, no Rockefeller Center, em Nova York, de 20/9/1932, e foi encenada para publicidade.
- O que circula
Dirigíveis atracavam no mastro do Empire State.
O que o registro dizO mastro funcionou como publicidade. Em setembro de 1931 houve um contato de minutos com um pequeno dirigível da Marinha e uma tentativa de entrega de correio que falhou. A foto famosa do dirigível atracado é montagem.
- O que circula
Morreram centenas de operários, e há homens enterrados no concreto.
O que o registro dizA construtora registrou 5 mortes até outubro de 1930, com circunstâncias descritas por John Tauranac; nenhuma no concreto e nenhuma por queda da estrutura de aço. O Daily News falou em 14; os 42 da New Masses são tratados como boato.
- O que circula
Os operários ganhavam US$ 1,25 por hora, em turnos de 12 horas, sete dias por semana.
O que o registro dizA escala sindical oficial de Nova York, em maio de 1930, dava ao montador de aço 192,5 centavos por hora, 40 horas por semana, sábado livre e hora extra em dobro. Turnos de 12 horas, só na escavação.
- O que circula
O prédio inteiro foi feito em 410 dias.
O que o registro dizO número é certo, mas mede de 17/3/1930 a 1/5/1931. Os contratos dos arquitetos são de setembro de 1929 e a demolição do hotel começou em 1/10/1929: do projeto à inauguração, foram cerca de 20 meses.
Empire State: 102 andares em 410 dias, e ninguém anotou quem os ergueu
Toda semana, uma obra que não deveria ter ficado de pé.
FONTESFontes
- Anthony W. Robins, Landmarks Preservation Commission, laudo de tombamento LP-2000, Nova York, 1981 — s-media.nyc.gov
- National Park Service, indicação do Empire State Building a National Historic Landmark — npgallery.nps.gov
- J. L. Edwards, "The Structural Frame", Architectural Forum, agosto de 1930 — archive.org
- Popular Mechanics, dezembro de 1930 — archive.org
- Bureau of Labor Statistics, Bulletin 540, Union Scales of Wages and Hours of Labor, May 15, 1930 — fraser.stlouisfed.org
- The New York Times, "Approves $27,500,000 for Smith Project", 14/12/1929, p. 3 — archive.org
- The New York Times, "Few Fatalities on Smith's Building", 23/10/1930, p. 25 — archive.org
- Library of Congress, foto do New York World-Telegram & Sun sobre o dirigível Columbia, 30/9/1931 — loc.gov
- Empire State Building, Facts & Figures e History — esbnyc.com
- John Tauranac, The Empire State Building: The Making of a Landmark, 2014
- Carol Willis e Donald Friedman, Building the Empire State, 1998
- Skyscraper Museum, The Empire State Building and the Untold Story of the Craftsmen Who Built It — skyscraper.org
- Glenn Kurtz, Men at Work, Seven Stories Press, 2025 — sevenstories.com
- Glenn Kurtz, "Who Built the Empire State Building?", Time, 28/3/2026 — time.com
- Architectural Record, sobre o livro de Glenn Kurtz, 1/5/2026 — architecturalrecord.com
- ASCE Metropolitan Section, Empire State Building — ascemetsection.org
Imagens
- Fig. 01 — O Empire State Building visto do norte, acima de Midtown Manhattan.: Jorge Láscar · CC BY 2.0
- Fig. 02 — As primeiras colunas de aço sendo assentadas no subsolo, em 7 de abril de 1930. Publicada na Architectural Forum de agosto de 1930.: Knickerbocker, para a Architectural Forum (1930) · Domínio público
- Fig. 03 — A estrutura na fase em que quase 30.000 t de aço estavam montadas, até 9 de junho de 1930. Architectural Forum, agosto de 1930.: Knickerbocker, para a Architectural Forum (1930) · Domínio público
- Fig. 04 — A estrutura subindo no lugar do Waldorf-Astoria, com o Chrysler Building ao fundo. Publicada na Mid-Week Pictorial de 5 de julho de 1930.: Lewis Hine (Mid-Week Pictorial, 1930) · Domínio público
- Fig. 05 — Um montador no alto da estrutura, com o Chrysler Building à direita. Foto de Lewis Hine.: Lewis Hine (National Archives, NARA 518290) · Domínio público
- Fig. 06 — O prédio em 16 de outubro de 1930, ainda sem a torre. Architectural Forum, novembro de 1930.: Knickerbocker, para a Architectural Forum (1930) · Domínio público